Brasileiros querem enviar satélite à Lua em 2020

Enquanto o programa espacial oficial não consegue sair do chão como deveria, as ambições dos brasileiros de participar da exploração do espaço cósmico buscam outros canais para a sua concretização. A iniciativa mais ambiciosa alia um grupo de cientistas de algumas das principais instituições de pesquisa nacionais a uma audaciosa empresa criada para gerenciar o projeto: nada menos que enviar um nanossatélite à órbita lunar em 2020.

O projeto, denominado Garatéa-L, foi apresentado em novembro último, em uma entrevista coletiva realizada na Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP). O nome é uma combinação do termo tupi-guarani para “busca vidas” e a letra “L”, para simbolizar o satélite terrestre.

“A ideia é nos beneficiarmos da recente revolução dos nanossatélites, mais conhecidos como cubesats, para colocar o país no mapa da exploração interplanetária”, disse o engenheiro espacial Lucas Fonseca, fundador da empresa Airvantis, criada em 2013, que coordena o projeto. Fonseca trabalhou na Agência Espacial Europeia (ESA) e participou da missão Rosetta, que, em 2014, efetuou um histórico pouso suave no cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, entre as órbitas de Marte e Júpiter.

O projeto está sendo desenvolvido por cientistas da EESC-USP (Grupo Zenith), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), Instituto Mauá de Tecnologia e Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS).

O custo estimado é de R$ 35 milhões, para os quais estão recorrendo aos órgãos de fomento à pesquisa e à iniciativa privada. “É um modelo novo de missão, com os olhos para o futuro, que pode trazer muitos benefícios para o país”, diz Fonseca (Galileu, novembro de 2016).

Os idealizadores do Garatéa-L estão correndo contra o tempo, pois o satélite precisa ser concluído até setembro de 2019, para poder ser lançado a bordo do foguete indiano PSLV-C11, que já colocou um satélite em órbita lunar, em 2008.

A missão, denominada Pathfinder, será coordenada pelas empresas britânicas SSTL e Goonhilly, em parceria a ESA e a Agência Espacial do Reino Unido, e levará vários nanossatélites, além do Garatéa-L. Os dados coletados por eles deverão ser transmitidos por pelo menos seis meses.

O Garatéa-L deverá realizar três experiências relacionadas à Astrobiologia:

– exposição de microrganismos e biomoléculas selecionadas em extrato sólido;

– cultivo microbiano em um meio líquido; e

– exposição de um tecido humano ao ambiente espacial.

Além disso, o nanossatélite levará uma câmera fotográfica desenvolvida pelo INPE, para a observação do polo Sul da Lua em voos rasantes (Manifesto da missão lunar brasileira).

O satélite terá o formato de um paralelepípedo de 10x20x30 centímetros e terá o peso de 7,2 kg.

Concepção artística do Garatéa-L.

Como parte dos ensaios necessários, o Grupo Zenith da EESC-USP já realizou dois lançamentos de sondas acopladas a balões meteorológicos, enviadas a altitudes da ordem de 30 quilômetros, para realizar várias experiências com microrganismos. O próximo lançamento, denominado missão Garatéa-E, está previsto para junho próximo.

A iniciativa envolve, também, projetos educacionais com estudantes com especializações na área espacial, que possam contribuir para o desenvolvimento tecnológico nacional. “A ideia é que essa missão seja o início da exploração brasileira do espaço profundo, e mostre que somos capazes de, com nossos recursos, produzir ciência de ponta nessa área”, afirma Douglas Galante, pesquisador do LNLS e coordenador de experimentos de Astrobiologia da missão.

Um otimista Lucas Fonseca espera promover impactos profundos na capacitação da comunidade científica brasileira. “Isso sem falar no impacto educacional de inspirar uma nova geração a olhar para o céu e acreditar que nada é realmente impossível, se você tem foco e dedicação”, conclui.

Para conhecer melhor esse extraordinário projeto, vale uma visita ao sítio da Missão Garatéa-L.

A iniciativa abaixo mostra que os mentores da missão têm bons motivos para o seu otimismo.

Estudantes cearenses (também) projetam sondas espaciais

Pegando carona no entusiasmo dos idealizadores do Garatéa-L, estudantes do Colégio Ari de Sá Cavalcante, de Fortaleza (CE), resolveram participar da próxima missão do projeto, a missão Garatéa-E, prevista para junho deste ano.

Como informa o blog Brazilian Space, os estudantes, com idades entre 12 e 17 anos, estão trabalhando com seus professores para construir três pequenas sondas, com as dimensões de uma lata de refrigerante e de bolinhas de tênis de mesa, contendo vários experimentos biológicos com sementes de plantas de várias partes do mundo, microrganismos vivos e experiências de Física Ondulatória. As sondas, que deverão ser embarcadas na Garatéa-E, foram batizadas Gleiser I, II e III, em homenagem ao astrônomo brasileiro Marcelo Gleiser.

O financiamento do projeto está sendo obtido por meio de uma iniciativa de “crowdfunding”.

Integrantes do “Projeto Gleiser”

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