Brasil, projeto de potência?

Por André Araújo

Um dos maiores países do mundo que se pretende no grupo da Rússia, da China e da Índia, o Brasil parece um bêbado perdido no meio da avenida.

Não tem postura e atitude de quem quer exercer uma projeção de poder internacional à altura de seu tamanho geográfico, demográfico e econômico, o fato de ser o maior país da América Latina, o maior país de cultura ibérica, o maior país latino do mundo, portanto maior herdeiro da tradição cultural e política de Roma. É também o maior país de raízes africanas do mundo, o país que mais recebeu imigrantes italianos, imigrantes japoneses, imigrantes sírio-libaneses. O Brasil é um País único entre os grandes ocidentais.

O Brasil adquiriu status de potência emergente na Segunda Guerra, quando foi um dos oito Aliados combatentes no teatro europeu, sendo-lhe oferecida a condição de potência ocupante da Áustria, que recusou. Perdeu aí grande posição de poder internacional que foi readquirida em boa parte no regime militar de 1964, com sua projeção de interesses no Iraque e na África.

O Brasil teve nesse período grande penetração no mundo árabe, maior cliente do petróleo iraquiano, grande fornecedor de material bélico para a região. Também ganhou enorme projeção em Angola e Moçambique, pelo rápido reconhecimento de seus governos independentes, o Governo militar passou a patrocinar a penetração de suas empreiteiras nos países do Terceiro Mundo, chegando a Odebrecht a ter 10% do PIB de Angola.

Anteriormente, a construtora Mendes Júnior tinha forte presença no Iraque e Mauritânia. Nessa época, estive várias vezes no Iraque e vi o enorme prestígio do Brasil na região, Murilo Mendes sentado ao lado de Saddam Hussein nos banquetes e o Brasil representado por um general de quatro estrelas da ativa, o General Samuel Alves Correa. O Banco do Brasil em parceria com o Raffidain Bank, banco oficial do Iraque, criaram o Banco Brasileiro Iraquiano para financiar o comércio bilateral, que chegava a US$ 4 bilhões por ano.

Com os Governos Collor e FHC, toda essa projeção se perdeu, deliberadamente, ao Brasil aceitar de forma vexaminosa assinar o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), cuja recusa pelo Brasil era até então histórica. Nos governos que se seguiram à Constituição de 88, especialmente Collor e FHC, criou-se a ideia que ser moderno era ser americanizado, deveríamos nos “globalizar”, chique era ser “neoliberal”. Perdeu-se nesse contexto a ideia de um Estado nacional brasileiro, era melhor o Brasil ser moderno e antenado com os EUA, o Plano Real foi a consagração dessa ideia de “americanização” que tinha a cara dos “economistas do Real” com mentalidade dolarizada, cursos de economia nos EUA. Foi chocado aí o ovo da serpente que hoje nos leva a ser monitorados pelo Departamento de Justiça, uma situação humilhante a que jamais o Brasil se submeteu anteriormente, em nenhuma época de sua existência como nação.

No quadro dos BRICS, o Brasil é o único que não pode ter programa nuclear autônomo e se submete voluntariamente à fiscalização da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica), braço dos EUA. Como parte dessa postura, acabou a Política Externa Independente e o Brasil rebaixou-se a um satélite dos EUA, cujo reflexo hoje está na jurisdição do Departamento de Justiça sobre empresas brasileiras, sob a desculpa de controlar a corrupção.

A política externa do Governo FHC, balizada pelo chanceler Celso Lafer, reduziu o papel do Brasil no Oriente Médio. Nos Governos militares, o Brasil optou por uma aliança tácita com os países árabes e em função dessa inserção tornou-se um importante fornecedor de material bélico de tecnologia intermediária, como os carros armados e os lançadores de mísseis Astros.

Essa atuação do Brasil desagradou profundamente os EUA, especialmente pelos fornecimentos da Engesa e da Avibras, que chegaram a exportar mais de um bilhão de dólares por ano para a região. O Governo FHC, de imediato, liquidou com essa plataforma de produção de material bélico, a Engesa foi à falência e a Avibras quase fechou.

Ao mesmo tempo, a Petrobras foi colocada sob a direção de financistas como Henri Reichstul e Francisco Gros, que liquidaram com as encomendas de sondas e navios no Brasil, passando todas as encomendas para os estaleiros Aker, na Noruega, controlado pelo banco Morgan Stanley, representado no Brasil por Francisco Gros. Com isso, liquidou-se a indústria naval brasileira.

Outro megaerro do Governo FHC foi a venda de um terço das ações da Petrobras nos EUA, listando a ação na Bolsa de Nova York, o que significou uma autorização de fiscalização da Petrobras pelo Governo americano, algo incompatível com a função estratégica da estatal.

Por essa razão, a PEMEX mexicana, a SONATRACH argelina, a SONANGOL angolana, a SAUDI ARAMCO saudita, a ROSNEFT russa, a STATOIL norueguesa, não têm ações em bolsas americanas. Ninguém quer o Governo americano metendo o bedelho em suas empresas.

No Governo FHC, o alinhamento com Washington foi total, perdendo o Brasil a projeção de poder que tivera em grande estilo nos Governos militares. Nos Governos do PT, houve nova tentativa de inserção internacional do Brasil como potência emergente, agora completamente destroçada pela ação dos acordos de cooperação judiciária, que jamais foram pensados para alavancar intromissão do Governo dos EUA na política interna e externa brasileira.

Os acordos de cooperação são um cavalo de Tróia, cujo custo político não compensa em nada para o Brasil, acordos onde um lado é muito mais forte que outro nascem desbalanceados e favorecem um só lado, jamais deveriam ser sido assinados, não há nenhuma vantagem e todas as desvantagens para o Brasil nesses acordos.

Pior ainda, esses acordos permitem alianças espúrias entre forças disruptivas dentro de cada País, forças que trabalham contra os Estados e a favor de incremento de poder de corporações não eleitas. Os acordos são um tumor maligno que em algum momento vão produzir rupturas do tecido político e econômico de cada Estado em nome de causas.

Com a subordinação do Brasil ao Departamento de Justiça, a presença do País no bloco dos BRICS está sendo reavaliada. Para pertencer a esse bloco, é incompatível uma situação de absoluta subordinação do Brasil e de suas empresas estratégicas ao Governo dos EUA.

Nenhum dos outros parceiros BRICS se prestaria a um papel tão diminuto de ser patrulhado por procuradores americanos e ter suas grandes empresas estratégicas MONITORADAS por inspetores americanos, caso da Embraer, Odebrecht e Petrobras.

Trata-se de um grande teatro de moralismo, porque os EUA toleram corrupção da pesada quando é de seu interesse, empresas de material bélico de Israel comercializam com o mundo inteiro e não constam que essas empresas sejam escolas de pureza. Jamais se soube de o Departamento de Justiça processar alguma empresa de Israel, também não consta que empresas chinesas, que não se lavam em água benta, sejam perseguidas pelo Departamento de Justiça, menos ainda as mafiosas empresas russas.

Na realidade, o vasto campo da lei internacional comporta tudo, dependendo de quem opera as alavancas. O Brasil aceitou jurisdição americana não se sabe bem porque, sem qualquer reação ou autodefesa, sobre importantes empresas brasileiras. Na tentativa até hoje inexplicada de processar a Petrobras, caberia ao Governo do Brasil uma fortíssima demarche em Washington, através dos canais diplomáticos, com a presença em Washington do Ministro da Justiça do Brasil, do Ministro das Relações Exteriores, mostrando a importância da Petrobras para o Estado brasileiro, do descabimento de um processo desse tipo contra uma empresa estatal central da economia brasileira.

E mais ainda, a Petrobras é provavelmente a maior importadora de combustíveis dos EUA, quase toda gasolina brasileira vem dos EUA, uma conta de quase US$ 20 bilhões por ano, além da compra de enorme quantidade de brocas da Halliburton, de serviços geofísicos da Schlumberger. Os americanos ENTENDEM perfeitamente e respeitam essa linguagem do dinheiro, a Petrobras é de interesse para os EUA como cliente, mas nunca ninguém do Governo brasileiro jogou isso na mesa, nunca se jogou na mesa a importância estratégica do Brasil para os EUA. O Brasil se comporta como uma Guatemala, humilde, pequenininho, submisso, e quer ser potência? Quer cadeira no Conselho de Segurança? Com essa postura de pobrezinho, chicoteado pelo Departamento de Justiça?

Acordos de cooperação jamais poderiam se aplicar a delitos de corrupção, porque esses crimes têm direta ligação com a política interna e sua manipulação e combate interferem com o jogo político, não podem estar submetidos à arbitragem estrangeira.

Uma característica geral dos países-potência é a DEFESA DE SUAS EMPRESAS no exterior, a ponto de empresas se tornarem símbolos internacionais de seus países, como a Exxon ser a cara dos EUA, a Siemens ser a cara da Alemanha, a Fiat ser o rosto da Itália, a Alstom ser a própria França, a Unilever ser a própria Inglaterra, a Nestlé ser a bandeira da Suíça.

Países importantes têm as suas empresas como força de penetração e de presença no exterior, são braços da projeção de poder, são porta-bandeiras de seus países. O que o Brasil fez com a Odebrecht? Liquidou com a empresa no exterior, uma empresa que já tinha forte presença em países importantes da África e América Latina.

Nenhum País com projeto de potência faz semelhante desatino. Ao contrário, o Brasil deveria apoiar a Odebrecht, como ponta de lança da presença brasileira no exterior, isso é o que fazem todos os grandes países.

O impressionante é a mídia brasileira achar ótimo, os Madureiras, Mainardis e Carvalhosas da vida elogiarem a destruição dessas empresas. O Brasil está sob o chicote do Departamento de Justiça, acham maravilhoso, a direita americanizada também acha lindo e até enchem a boca, “agora vai, os americanos estão tomando conta dos nossos casos de corrupção, que ótimo”, acham isso, pensam assim, se congratulam com isso. No dia 26 de dezembro, no Programa Três em Um, da Jovem Pan, Madureira repete: “Agora a coisa é com o FBI”, achando ótimo isso, o Brasil policiado pelo FBI, é a gloria, estamos chegando ao nível de Porto Rico.

Os grandes países desenvolvidos ganharam sua riqueza escravizando povos, subornando sobas locais, aliciando elites, como os ingleses fizeram com os rajás e marajás indianos, espionando, intrigando, pirateando. Inglaterra, EUA, França, Alemanha, já fizeram de tudo e agora, ricos, viraram a madre superiora do convento, somos honestos e exigimos honestidade dos novos penetras, como o Brasil, esquecendo que os agora santarrões já foram bem piores que os corruptos da Petrobras.

Suas petroleiras já fizeram de tudo a seu tempo e agora policiam a Petrobras, para que esta seja honesta como foram a Standards Oil, a Royal Dutch Shell, a Texaco no seu longínquo passado em que negociavam com ditadores como José Vicente Gomez, “El Bagre”, quando descobriram petróleo na Venezuela. Hoje tapam o nariz para a Petrobras, mas já estimularam a Guerra do Chaco, entre Bolívia e Paraguai, por causa de petróleo. Guerras por petróleo ocorreram por todo o mundo, com a sete irmãs do petróleo sendo defendidas por seus Governos, como a BP, que derrubou Mossadegh no Irã, em 1953, por causa das concessões da então Anglo Persian, depois BP.

Um país importante, entre os dez maiores do mundo por qualquer critério, como é o Brasil, não pode estar subordinado a departamentos de justiça de outros países, nem países menores se sujeitam a tal vexame. Como é possível o Governo do Brasil aceitar ser processado como delinquente comum por organismos de outros governos?

Um país potência tem que ter postura e atitude de um País com projeção de poder. Falta ao Brasil essa consciência, algo que foi perdido na Constituição de 88 que, na ânsia de defender direitos individuais, se esqueceu de defender o Estado brasileiro.

Todo valor da corrupção somado é uma infinita fração do valor estratégico que a economia brasileira perde por sua saída de grandes mercados na África e da América Latina, onde seremos o único país sério vendendo honestidade, enquanto empreiteiras asiáticas vendem obras, serviços e engenharia. Perdemos os mercados, mas vamos ganhar prêmios da Transparência Internacional em Washington, com direito a homenagens a brasileiros.

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