Brasil: depressão desmascara ilusionismo econômico

O aumento da previsão de déficit fiscal, a redução contínua dos prognósticos de crescimento do PIB de 2017 e a persistência dos níveis recordes de desemprego e subemprego, deixam claro que a retórica ilusionista do arrocho orçamentário e das decantadas reformas não lograram esconder a profunda depressão econômica.

Na verdade, se persistir a atual orientação pró-rentista, que prioriza o serviço da dívida pública, a tendência será de aprofundamento de uma espiral descendente da economia física acentuando a “fábrica de juros”, como definiu o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Paulo Rabello de Castro, insuspeito de heterodoxias econômico-financeiras.

Em palestra no Encontro Nacional de Exportadores, ele afirmou que os últimos superávits comerciais obtidos pelo País são um parco consolo pela crise geral: “Temos que refletir antes de comemorarmos a vitória de termos um pujante setor exportador superavitário, mas que foi em decorrência da maior recessão brasileira. Se não fosse o agronegócio, já poderíamos ter fechado e atirado a chave no Oceano Atlântico. Temos pouco a comemorar e muito a refletir sobre o morticínio brasileiro, e a principal vítima é a indústria brasileira, de produção e de serviços (O Globo, 09/08/2017).”

Urge, portanto, que o País abandone as miragens de políticas desenhadas para favorecer os mercados financeiros e os projetos políticos associados, e disponha-se a encabeçar uma ampla reconstrução das capacidades produtivas nacionais, incorporando os desafios de qualifica-las para as revoluções científicas, tecnológicas e produtivas em curso – e que já estão nas pautas preferenciais das economias mais avançadas.

Se a História serve de exemplo, nenhuma economia minimamente sofisticada conseguiu superar uma depressão como a brasileira, sem um programa maciço de investimentos públicos, a exemplo do New Deal de Franklin Roosevelt, que pavimentou o difícil caminho para que os EUA pudessem reverter a grande crise da década de 1930, oito anos de dirigismo econômico que prepararam o país para atuar como a grande linha de produção dos Aliados, na II Guerra Mundial. Programa que, recorde-se, começou com a neutralização dos “banksters” (contração de banqueiros e gângsteres), como os rotulava Roosevelt, por terem arruinado a economia com os seus excessos especulativos.

Vale também recordar que uma peça-chave da estratégia foi nomear para o Sistema da Reserva Federal um industrial e banqueiro comprometido com as forças produtivas, Marriner S. Eccles, que ocupou o cargo até 1948.

Aqui, é visível que os rumos da economia não podem continuar sendo decididos nos bunkers rentistas da Avenida Paulista e do Banco Central. Nem eles nem o seu aparato de propaganda na grande mídia poderão solucionar a crise com o liberalismo monetário clássico. Já passou da hora de que se lhes tirem as rédeas do País.

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