Brasil: campeão do mundo de energia mais cara para a indústria!

custo-energia-indústria-mundo

Ivo Augusto de Abreu Pugnaloni*

Faz tempo que nossa “equipetéknika” luta para conseguir para o Brasil um título inédito: o de país que pratica as tarifas de energia mais cara do mundo para a sua indústria, trabalhando contra a competitividade de seus próprios produtos no mercado internacional e contra a geração de novos empregos.

Enfrentamos adversários importantes, como as confusas equipes da Índia e da Itália, esta brilhantemente treinada por Berlusconi, que em quinze anos estruturou uma seleção quase invencível: a Azzura Nera, com as cores do Internazionale e da negra fumaça de petróleo queimado, que encobriu o azul dos céus italianos.

Em 2014, chegamos a um quarto lugar promissor, depois de amargar um tímido décimo-segundo posto em 2013, quando a presidenta Dilma resolveu, aconselhada pela “equipetéknika”, queimar seu filme junto com 40 bilhões de dólares em derivados de petróleo, reduzindo as tarifas ao consumidor final, mas recorrendo apenas ao artificio de promover a retirada dos ativos mais antigos, as usinas e linhas já amortizadas, do seu cálculo.

Uma providencia tão básica e necessária quanto retirar o gordo e enfermo “Fenômeno” do time, mas sem colocar nenhum outro jogador no seu lugar, passando a jogar o campeonato inteiro com 10 homens.

Ou seja, foi a “ekipetéknika” que convenceu a presidenta que podíamos reduzir as tarifas sem fazermos o nosso “dever de casa”, que seria construir novas hidrelétricas, criando energia nova e barata, de fonte hídrica, que mantivessem cheios os reservatórios das grandes usinas.

Mas como foi que os nossos experientes treinadores, que estão nos cargos há décadas – alguns desde os tempos da ditadura -, fizeram para convencer a nossa presidenta?

Não deve ter sido difícil, pois desde o governo Lula, os cálculos estatísticos das garantias físicas das hidrelétricas brasileiras haviam sido superestimados, por meio da adoção de nove premissas equivocadas na Nota Técnica 099.

Além disso, o custo real das térmicas havia sido subestimado por meio da nota técnica 102 de 2008, ambas da EPE, empresa estatal de consultoria em energia. Foi com base nesses dois documentos oficiais que a “equipetéknika” fez os dois últimos governos ignorarem a realidade do desequilíbrio entre oferta e demanda. E fez os presidentes e ministros pensarem que as térmicas fósseis iriam funcionar apenas alguns dias por ano… No máximo, um ou dois meses…

Foi baseando-se nesses cálculos equivocados, que estimavam reservas muito maiores para as hidrelétricas existentes, e além disso, a não necessidade de outras hidrelétricas e preços reais muito menores para as térmicas fósseis, que se fez o principal: nos leilões imporem-se preços teto muito baixos, inviáveis, de por exemplo, 112 reais por megawatt-hora, para as fontes renováveis.

Como por exemplo, para as hidrelétricas de baixo impacto ambiental, as chamadas PCHs que graças a isso conseguiram vender apenas 1,25% do total comprado, embora seus preços, hoje de cerca de 230 reais por megawatt-hora fossem muito menores do que os 1.480 reais que se paga para as térmicas que venderam mais de 40% do total!

Foi assim, impondo como teto esses preços baixos, que a ekipeteknika conseguiu que mais de 10.000 MW, equivalentes a 65% de uma nova Itaipu ficassem impossibilitadas de participar dos certames. Estes então passaram a ser uma “festinha particular” da verdadeira “Itaipu de Poluição e Energia Cara” de 14.000 MW de termoelétricas movidas a derivados fósseis, que segundo os cálculos deveriam operar apenas alguns dias por ano, mas terminaram operando o ano todo, em 2014, 2013 e boa parte de 2012.

A ironia é que tudo isso foi feito alegando-se “estar perseguindo a modicidade tarifária”. E mais ironia ainda que no mesmo dia que o novo ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, visitou na sexta-feira a FIRJAN, a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro, a entidade presenteou-o com mais um novo e importante troféu que a equipe técnica que Lobão lhe deixou havia trazido para o Brasil: agora é definitivo e somos os campeões mundiais da energia mais cara para a indústria!

Um título incontestável, conferido ao Brasil pela Agencia Internacional de Energia. E que deve deixar orgulhosos alguns brasileiros que se esforçam, todos os dias, trabalhando de manhã à noite para que nosso país tenha menos capacidade de utilizar seu imenso potencial hidrelétrico de 155 GW e use mais petróleo importado para gerar eletricidade, aumentando tarifas e o “custo Brasil”, exportando menos, fechando mais fábricas, despedindo mais empregados e arrecadando menos receita para manter as empresas brasileiras e o país funcionando como deveria funcionar.

Em time que está ganhando não se mexe. E nossa ekipeteknika está ganhando! E é, portanto “imexível”: somos os campeões mundiais da Energia Mais Cara para a indústria. E gastamos quase 50% do superávit primário por ano em 2013 e 2014 comprando diesel, gás liquefeito e óleo combustível para não sofrer um apagão! E se continuarmos assim, sem mexer na equipe, deixando-a trabalhar em paz, chegaremos sem muito esforço, ao bicampeonato em 2015!
“Prá Frente Brasil, Salve a Seleção!”, como dizia a marchinha dos anos 70, tão lembrada pelos saudosistas que hoje estão na moda!

(Não deixe de ler a matéria do Canalenergia, nem as notas técnicas, se você gosta do “Jogo dos Nove Erros”, no qual se tivesse um campeonato mundial, nós seríamos os primeiros também!)

* Presidente da Associação Brasileira de Fomento às Pequenas Centrais Hidroelétricas (ABRAPCH). Artigo originalmente publicado no sítio do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Elétrico-Ilumina, em 29 de março de 2015.

Comentários

comments

Leave a Reply

Your email address will not be published.

x

Check Also

A Ferrovia Transcontinental e seu significado estratégico

Em outro artigo, saudamos a inclusão da chamada Ferrovia Transcontinental no pacote de concessões em ...