A “astronauta” do Itaú e a tragédia (da Ciência) brasileira

Dificilmente, terá deixado de se emocionar quem assistiu à versão original do filmete sobre uma menina brasileira que sonha com o espaço e torna-se uma astronauta quando adulta. O vídeo de mais de dois minutos é parte de uma campanha publicitária de apoio à leitura patrocinada pelo Banco Itaú. Muito bem produzida, a peça alterna cenas da menina na infância, nas quais demonstra o seu interesse pelo espaço cósmico, e momentos da preparação para o voo num ônibus espacial, culminando com o lançamento. Tudo ao som de uma bela versão em voz feminina e coral infantil da oportunamente escolhida Starman, do há pouco falecido David Bowie (devidamente convertida em “Stargirl”).

Entretanto, após a emoção, é impossível evitar a frustração pelo fato de o filme ser uma peça de ficção, em vez de parte do noticiário cotidiano.

A “menina-astronauta” do Itaú (reprodução do vídeo)

Certo, o Brasil já teve um astronauta, um oficial da Força Aérea Brasileira (FAB) que pegou carona num voo russo para a Estação Espacial Internacional (ISS), lá passou uma semana e, um mês após o seu retorno à Terra, pediu passagem para a reserva para tornar-se conferencista e empresário de viagens radicais. Antes de embarcar numa nave Soyuz, ele havia passado oito anos treinando com a NASA (Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço), inserido na participação brasileira na ISS, em um contrato assinado em 1997 pela Agência Espacial Brasileira (AEB). Em 2007, sem ter cumprido nenhum dos compromissos assumidos, o Brasil foi excluído do consórcio de 16 países integrantes da ISS. A justificativa oferecida para o vexame foi que o custo da parte nacional, orçado em 120 milhões de dólares, seria “fora da realidade” da AEB, tendo o governo brasileiro levado uma década para chegar a tal conclusão.

Da mesma forma, em 2015, depois de gastar cerca de R$ 1 bilhão em dez anos, o Brasil cancelou o consórcio com a Ucrânia para a produção do foguete Cyclone. E igualmente cancelado foi o programa do Veículo Lançador de Satélites (VLS), que não passou de três tentativas frustradas, a última das quais de forma trágica, em 2003, com a explosão do foguete ainda em testes na plataforma do Centro de Lançamento de Alcântara, causando a morte de 21 pessoas.

Uma análise superficial poderia sugerir que os brasileiros seriam incapazes de planejar e executar projetos complexos e sofisticados como um programa espacial. Mas o problema é outro: o que falta não é capacidade, mas visão de futuro e a ideia de um projeto nacional nas elites dirigentes do País. Para grande parte delas, as atividades espaciais são “supérfluas” ou demasiado dispendiosas, um luxo inadequado para orçamentos orientados para outras prioridades, como o serviço da dívida pública. E, como mostram os brutais cortes no orçamento do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações (MCTIC), que horrorizaram e mobilizaram até mesmo cientistas estrangeiros, tal desprezo não se restringe às atividades espaciais, mas abarca toda a gama de atividades e pesquisas indispensáveis a qualquer nação minimamente atenta às exigências da revolução científico-tecnológica em curso, a qual irá determinar categoricamente o seu destino nas décadas vindouras.

A preocupação com o futuro foi, precisamente, o mote principal da carta enviada ao presidente Michel Temer por 23 cientistas ganhadores do Prêmio Nobel, cujo texto afirma, em parte: “Isso vai prejudicar o país por muitos anos, com o desmantelamento de grupos internacionalmente renomados e uma ‘fuga de cérebros’ que irá afetar os melhores e jovens cientistas. Enquanto em outros países a crise econômica levou, às vezes, a cortes orçamentários de 5% a 10% para a ciência, um corte de mais de 50% é impossível de ser acomodado, e irá comprometer seriamente o futuro do país. Nós sabemos que a situação econômica do Brasil está muito complicada, mas pedimos que reconsidere sua decisão antes que seja tarde demais (Gizmodo Brasil, 02/10/2017).”

“Cortar financiamento científico é como comer as sementes”, disse ao jornal O Globo o professor da Universidade Stanford, Robert Laughlin, Prêmio Nobel de Física de 1998.

A resposta veio dias depois, com o anúncio de que apenas 20% dos R$ 2,2 bilhões que haviam sido “contingenciados” do orçamento do MCTIC serão efetivamente liberados pela equipe econômica que controla o governo (Jornal da Ciência, 03/10/2017).

Definitivamente, o que falta ao Brasil não são cérebros capazes de atuar nas fronteiras do conhecimento. Os cientistas, engenheiros e técnicos brasileiros têm demonstrado repetidamente tal capacidade: ao viabilizar a exploração agrícola do Cerrado; no desenvolvimento da tecnologia de exploração petrolífera em águas profundas; no domínio completo do ciclo nuclear; no projeto e construção de aeronaves no estado da arte; no Maglev-Cobra, trem de levitação magnética projetado na COPPE-UFRJ; no projeto do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron, um dos mais avançados do mundo (se não for prejudicado pelos cortes); e em outros exemplos. Se o programa espacial não decola e, pior, a própria estrutura básica da C&T nacional experimenta uma grave crise existencial, o problema está na pauta de prioridades determinadas pelos dirigentes nacionais, acomodados e subordinados aos interesses da alta finança “globalizada”.

Protótipo do Maglev-Cobra em operação, na UFRJ. Apenas cinco países do mundo dominam esta tecnologia de levitação magnética.

Recordando a advertência de José Bonifácio de Andrada e Silva, velha de dois séculos: “Infeliz o governo cuja administração econômica é seduzida e dominada pelas finanças: três vezes infeliz aquele donde se diz, la haute finance. (…) Em toda sociedade bem ordenada, arrendar as finanças devia ser proibido.”

Voltando ao tema inicial, a vizinha Argentina, com 30% do PIB do Brasil, consideráveis problemas econômicos e uma base industrial bem menor e menos diversificada que a brasileira, mantém um bem-sucedido programa espacial, projetando e construindo uma gama de satélites para diversas finalidades (inclusive geoestacionários) e preparando-se para lançar o seu primeiro foguete lançador de satélites, o Tronador II. A diferença crucial: é um programa de Estado, com financiamento e continuidade assegurados independentemente do governo de turno.

E o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva do vizinho tem também um eficiente programa de Estado para a repatriação de cientistas. Desde 2008, o RAICES (Red de Argentinos Investigadores y Científicos en el Exterior) já conseguiu trazer de volta mais de 1.300 dos 4.800 cientistas argentinos que haviam deixado o país.

Do outro lado dos Andes, o pequeno Equador, com um PIB equivalente a apenas 5,5% do brasileiro, está investindo 1 bilhão de dólares nos primeiros quatro anos de funcionamento da Cidade do Conhecimento Yachay, iniciativa única na América Latina. Inaugurada em 2014, trata-se de um centro de geração de conhecimento científico-tecnológico e atividade industrial avançada, envolvendo instituições públicas e empresas privadas, pensado como um grande “cluster” de inovação destinado a mudar o perfil da economia equatoriana, reduzindo o peso do extrativismo e da exportação de commodities e ampliando o das atividades intensivas em conhecimento.

Em cima, o Arsat-1, satélite geoestacionário de comunicações argentino; em baixo, a Cidade do Conhecimento Yachay, no Equador.

 

 

 

 

 

Por aqui, ao contrário, a participação da indústria no PIB despenca para os níveis da República Velha e a “reprimarização” da economia é encarada de forma fatalista e passiva, como se fosse uma força natural incontornável, de braços dados com o desprezo pela geração de capacitação e conhecimento imprescindíveis para qualificar o País para os desafios da chamada Quarta Revolução Industrial.

E, na contramão da economia real, que experimenta a maior depressão da sua história, o setor financeiro bate recordes históricos de rentabilidade e lucratividade. Ah, e segundo a revista Exame, o Itaú voltou a ser a empresa mais lucrativa do País no primeiro semestre deste ano, registrando uma alta de 12,75% no lucro líquido repartido aos acionistas, em relação ao mesmo período do ano passado.

De fato, para que um País dominado por rentistas, viciado no “curtoprazismo” e incapaz de enxergar os seus verdadeiros interesses, precisa de astronautas, foguetes, satélites e cientistas? Afinal, temos os bancos mais lucrativos do mundo e se pode ganhar – muito – dinheiro com poucos riscos e escassa geração de conhecimento, com títulos da dívida pública e outros instrumentos financeiros especulativos.

Se continuarmos assistindo passivamente a tudo isso, a menina-astronauta do Itaú terá que buscar outro país para perseguir o seu sonho.

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