As dez maiores economias e a energia nuclear: reflexões para o futuro do Brasil

O Brasil é a oitava maior economia mundial, quando se usa o critério de paridade de poder de compra (PPC), e a sétima economia quando se considera o critério do câmbio nominal. Ambas as apurações são do Fundo Monetário Internacional para o ano de 2010. O primeiro critério representa melhor o valor da produção dos países e independe das políticas cambiais nacionais e de suas oscilações bruscas por problemas conjunturais. De qualquer forma, o Brasil está, para ambos os critérios, entre as oito maiores economias mundiais.

Na Tabela 1, estão indicadas as dez maiores economias pelos critérios de PPC e de câmbio nominal. A tabela também inclui o Canadá, que é apenas o 14° na lista por paridade do poder de compra, mas é o 9º PIB nominal. Esta tabela também apresenta o PIB PPC per capita.


A metodologia de paridade de poder de compra busca indicar o PIB a preços equivalentes nos EUA. Por essa razão, os valores para esse país são idênticos nas duas listas. Entre os dez maiores, as posições relativas variam muito para os dois critérios, sendo a maior variação a da Índia, que passa de décimo para o quarto quando se considera a PPC.

Na composição da lista das dez maiores economias do mundo, a Rússia substitui o Canadá quando se passa do câmbio nominal para a PPC. A posição do Brasil varia muito pouco, sendo o sétimo na lista do PIB ao câmbio nominal e oitavo, praticamente empatado no sétimo lugar com o Reino Unido, pela paridade de poder

A Figura 1 ilustra a posição dos maiores países em PIB, medido em PPC e valor nominal. Os onze países representados ocupam as dez primeiras posições no ranking mundial do PIB nominal ou em paridade de poder de compra.

Fig. 1 – As dez maiores economias mundiais em 2010 (PIB em PPC).

Quando se usa o critério da renda per capita, a lista incluiria em seu topo uma quantidade de pequenos países ricos. Dentre os maiores PIB, os EUA ficam em 9° lugar, o Canadá em 12° e a Alemanha em 19°. As demais maiores economias se encontram abaixo do 20º lugar.

O Brasil, que recentemente ultrapassou a limiar da média mundial de PIB PPC per capita, está em 72° lugar. Note-se que a China está em 94° e a Índia em 129°. Apesar do baixo valor da renda per capita desses países, isso não reduz seu peso específico no comércio internacional e até mesmo o reforça pelo potencial de mercado existente, numa visão de mais longo prazo.

Assim, o Brasil já ocupa hoje posição dentre os “dez mais” da economia mundial, sendo ainda o quinto país em termos de extensão territorial e em população, conforme a Tabela 2.

Seus recursos naturais, força de trabalho e produção diversificada de bens e serviços permite projetar a ascensão futura do Brasil nessa lista, conforme vem sendo feito por alguns estudos econômicos internacionais. As projeções de Goldman Sachs, 2007 colocam o Brasil na quinta posição de PIB PPC em 2050, conforme a Figura 2 abaixo.

 

Fig. 2 – As dez maiores economias mundiais 2010-2050.

O fato de nossa economia estar entre as dez maiores do mundo ainda não foi incorporado à percepção dos brasileiros frente ao mundo, mas já é um fato concreto nas relações internacionais.

Antigamente tínhamos aquela incômoda sensação de que o Presidente do Brasil era quase um intruso nas fotos das cúpulas mundiais. Agora já nos acostumamos a isso e, futuramente, serão os participantes do grupo denominado G-8 que vão começar a sentir a falta de significado prático de suas reuniões com a ausência de países como China, Brasil e Índia. É provável que isto já esteja de fato ocorrendo.

Os dez mais e a energia nuclear

O critério adotado para fixar os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU que possuem o poder de veto (EUA, Rússia, China, Reino Unido e França), não foi o peso relativo dos países na economia, na população ou na superfície mundial: foi o fato de serem os “vencedores” da 2ª Guerra Mundial. Num primeiro momento, somente os EUA possuíam armamento nuclear. Muito rapidamente, porém, os demais “vencedores” acederam à posse dessas armas (Guimarães, 2010).

Isso se justificava pelo contexto histórico em que esse critério foi adotado, ou seja, imediato pós-guerra e, principalmente, pós-Hiroshima e Nagasaki. À época e nas décadas que se seguiram, dominadas pela ideologia da “Guerra Fria” e da “Mútua Destruição Garantida” (Mutual Assured Destruction – MAD), o fator de peso relativo determinante era, inequivocamente, o poder militar, do qual as armas nucleares constituíam fator fundamental de assimetria de poder pela força bruta.

Hoje, passados mais de 60 anos do fim da guerra, a posse de armamento nuclear e a persistente sobrevivência da ideologia a ela associada parece ser o único critério objetivo para a manutenção desse status quo.

Felizmente, a posse de armas nucleares e o próprio poder militar vem deixando de ser os determinantes básicos da influência dos países no cenário mundial. Os fatores econômicos se tornam cada vez mais determinantes do que a posse de armamentos nucleares para medir o peso político dos países.

A ascensão econômica da Alemanha e Japão e, em menor escala, da Itália e demais países europeus destruídos pela guerra, foram os primeiros sinais dessa mudança, ainda que mitigados pela “nuclearização” da França e Grã-Bretanha (e posteriormente da China), pela criação da OTAN, que passou a permitir o “compartilhamento” das armas nucleares entre seus membros, e pela abertura do “guarda-chuva” de proteção nuclear americano sobre o Japão.

Na Tabela 3, estão indicados os dez maiores países em termos de PIB (em PPC) e sua situação quanto à posse e o compartilhamento de armas nucleares. É assinalada, para o Japão, a existência do “guarda-chuva” de proteção nuclear oferecido pelos EUA. Também é indicado na tabela o número de reatores nucleares de pesquisa em operação nesses países, que é um indicador do nível da atividade de desenvolvimento científico e tecnológico na área nuclear e da produção de radioisótopos para usos médicos e industriais.

Dos dez maiores países, seis possuem armamento nuclear próprio. Alemanha e Itália são membros da OTAN, tendo armazenado em seus territórios numerosos artefatos nucleares “compartilhados”. As condições detalhadas de como se processa esse compartilhamento não são exatamente conhecidas. Sabe-se, no entanto, que, por exemplo, existem na Alemanha aviões de combate Tornado da Força Aérea Alemã (Luftwaffe) prontos para, sob comando da OTAN, serem armados com artefatos nucleares (Kristensen, 2005). Sabe-se ainda que cabe ao comandante da OTAN, ouvido o comando dos EUA junto àquela organização, a decisão sobre o uso do armamento nuclear compartilhado (GAO, 2011).

 

O Japão tem um acordo com os EUA que garante um “guarda-chuva” de proteção nuclear que implica a existência armas nucleares a uma distância relativamente curta das potenciais ameaças. Isto faz crer na presença de armamento nuclear em embarcações e aeronaves em águas territoriais japonesas, senão em seu próprio solo nacional, ainda que controladas pelos americanos. Ao menos no passado, existem indícios claros (documentos liberados em conseqüência do Freedom of Information Act – FOIA dos EUA) de que armas nucleares estiveram nos espaços territorial, marítimo e aéreo japonês (Kristensen, 1999). A contestação da eficácia desse guarda-chuva de proteção e a conseqüente discussão quanto à conveniência do país ter sua força nuclear própria para defender-se de eventuais ataques é tema recorrente na política interna do Japão, que recrudesce sempre que ocorrem tensões com a China (disputas territoriais por ilhas) e Coreia do Norte (testes nucleares e de mísseis de longo alcance).

 

No que concerne ao domínio do ciclo nuclear e à geração elétrica nuclear, apenas a Itália não mantém atualmente atividades na área em virtude de decisão política tomada (referendum popular em 1987) sob a forte influência emocional do acidente de Tchernobyl (1986), tendo sua última usina nuclear sido desligada definitivamente em 1990. No contexto de uma crise política interna do governo Berlusconi agravada pelo acidente de Fukushima, a retomada das atividades nucleares na Itália foi rejeitada por recente referendum popular em junho de 2011.

 

Por lei de 2001, a Alemanha se comprometeu ao desligamento definitivo de todas as suas usinas nucleares até 2022. O Governo da chanceler Angela Merkel conseguiu aprovar no Bundestag nova lei que postergou tal decisão por 10 anos. Essa mudança deveu-se principalmente às dificuldades técnicas que a Alemanha enfrenta para cumprir simultaneamente essa decisão política e as metas de redução de emissões de gases de efeito estufa, bem como manter uma razoável segurança energética nacional, minimizando importações de eletricidade dos países vizinhos e de combustíveis fósseis, em especial gás natural da Rússia.

 

Entretanto, após o acidente de Fukushima (março de 2011) e também no contexto de uma crise política interna ligada à proximidade de eleições, esse mesmo governo voltou atrás recentemente, mantendo a data limite de 2022. Entretanto, o governo alemão não tem uma política de abandono das atividades ligadas ao ciclo do combustível nuclear nem de banimento de armas nucleares de seu território, atitude essa no mínimo contraditória.

 

Essas decisões políticas, porém, não impedem que Itália e Alemanha importem significativas parcelas de seu consumo de eletricidade de países geradores de energia nuclear, como França, Eslovênia, Hungria e República Tcheca.

 

Note-se que tanto a Itália como a Alemanha estavam no caminho de desistir da renúncia à geração núcleo-elétrica quando ocorreu o acidente de Fukushima num contexto de crise política interna, o que fez esses países reafirmarem sua posição anterior de abandono das usinas nucleares.

 

Na Tabela 4, estão indicados os dados de geração de energia elétrica e da participação nuclear. A tabela também indica as reservas estimadas de urânio dos países (só são indicadas as reservas relevantes do ponto de vista mundial). A posse de reservas de urânio é, naturalmente, um fator a ser levado em conta nas decisões sobre a energia nuclear no País.

Cabe ressaltar que Brasil, Rússia e EUA são os únicos países do mundo que possuem grandes reservas de urânio, domínio tecnológico de todas as etapas de produção do combustível nuclear e um parque de geração elétrica nuclear em operação. Rússia e EUA, entretanto, possuem capacidade industrial instalada suficiente para garantir auto-suficiência na produção de combustível nuclear. O Brasil tem tal capacidade nas etapas de mineração, beneficiamento e fabricação, faltando, porém, instalações industriais como capacidade suficiente para atender as necessidades nacionais nas etapas de conversão e de enriquecimento, apesar de possuir unidades piloto com capacidade de produção limitada desde o final dos anos 80.

 

Conclusão

 

O Brasil é, dentre as dez maiores economias mundiais, o único que não possui, não armazena em seu território e nem considera a possibilidade de uso de armas nucleares estrangeiras na sua estratégia de defesa. Juntamente com Nova Zelândia, o Brasil é o único país do mundo que proscreveu os usos não pacíficos da energia nuclear na sua própria Constituição Federal. O Brasil é, portanto, signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e do Tratado de Tlatelolco, este último estabelecendo a América Latina e Caribe uma zona livre de armas nucleares.
O Acordo Brasil-Argentina, que eliminou uma potencial corrida por armas nucleares na região e que criou a Agência Brasil Argentina de Contabilidade e Controle de materiais nucleares (ABACC) completa 20 anos em 2011. O Acordo assegurou o clima político favorável para que o Mercosul fosse posteriormente instalado. Esse bloco econômico serviu de base para o avanço da integração econômica do Continente Sul-Americano. O espaço econômico que assim se abriu é de grande importância para o continente. O comércio com a Argentina, que era quase desprezível, alçou nosso vizinho à posição de segundo maior parceiro comercial do Brasil.

 

Ao Brasil interessa manter sua posição de uso apenas pacífico da energia nuclear. Isso dá ao país um caráter único junto aos “dez mais” da economia mundial, que se reflete numa autoridade moral e ética que pode ser explorada politicamente em diversas situações como, por exemplo, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e na arbitragem de crises internacionais. Essa “vantagem competitiva” é muito mais valiosa do que a posse de armas nucleares que, ao final das contas, seriam feitas para nunca serem usadas.

 

Entretanto, os quadros apresentados mostram de forma inequívoca a importância estratégica do Brasil se manter ativo na exploração dos usos pacíficos da energia nuclear, expandindo seu domínio tecnológico e capacidade industrial instalada nos diversos setores associados, como produção de radioisótopos para medicina e indústria, produção de combustível nuclear e geração elétrica nuclear.

 

O Plano Nacional de Energia (PNE), que prevê a conclusão de Angra 3 até 2015 e a implantação de 4.000 MW nucleares adicionais até 2030, juntamente com as metas estabelecidas para a autosuficiência na produção do combustível nuclear, que mantêm nas duas próximas décadas uma participação do nuclear na geração elétrica próxima da atual, também é, por necessidades de diversificação da matriz energética, uma opção sensata do ponto de vista energético.

 

Fontes:

 

– CIA The World Fact Book, consultado em julho de 2011, em http://www.cia.gov.

 

– FMI, citado na Wikipedia (2010), consultado em junho 2011, em http://en.m.wikipedia.org.

 

– Goldman Sachs, BRICS and Beyond – study of BRIC and N11 nations, Novembro 2007, disponível em http://www2.goldmansachs.com/ideas/brics/book/BRIC-Full.pdf.

 

– Guimarães, L. S., “A (contra) ameaça nuclear”, in Revista Marítima Brasileira, vol. 130, série 04/06, maio de 2010.

 

– GAO (May 2011). Nuclear Weapons – DOD and NNSA Need to Better Manage Scope of Future Refurbishments and Risks to Maintaining U.S. Commitments to NATO. Washington – DC – USA: United States Government Accountability Office, disponível em http://www.gao.gov/products/GAO-11-387.

 

– IAEA (2010). Nuclear Power Reactors in the World – Reference Data No. 2. Viena: International Atomic Energy Agency.

 

– Kristensen, H. M. (Julho 1999). Japan Under the Nuclear Umbrella: U.S. Nuclear Weapons and Nuclear War Planning In Japan During the Cold War. The Nautilus Institute for Security and Sustainable Development.

 

– Kristensen, H. M. (Fevereiro 2005). U.S. Nuclear Weapons in Europe: A Review of Post-Cold War Policy, Force Levels, and War Planning, Natural Resources Defense Council, diponível em http://www.nrdc.org/nuclear/euro/euro.pdf.

 

– World Nuclear Association (Julho 2011). World Nuclear Power Reactors & Uranium Requirements. Consultado em julho 2011, em http://www.world-nuclear.org/info/reactors.html.

 

* Carlos Augusto Feu Alvim da Silva é editor da revista Economia e Energia e&e (http://ecen.com) e foi o primeiro secretário da Agência Brasil Argentina de Contabilidade e Controle (ABACC), de 1992 a 1993; Leonam dos Santos Guimarães é assistente do Diretor Presidente da Eletrobrás Eletronuclear S.A. e membro do Grupo Permanente de Assessoria em Energia Nuclear do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

 

 

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  1. O Brasil deveria atentar para alguns pontos de investimento necessários a própria sobrevivência: energia nuclear/comunicação via satélite/armamento e rede própria de internet. somos muito vulneráveis.

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