A Alemanha pós-eleições: chance para novas prioridades externas?

As eleições federais de 24 de setembro provocaram uma grande fermentação política interna na Alemanha e uma guinada qualitativa no coração da Europa. Embora a grande coalizão governista democrata-cristã/social-cristã tenha conseguido se manter, ela sofreu o seu pior revés desde 1949. Juntos, os dois partidos, CDU e CSU, perderam 14% do eleitorado, caindo para 32,9%, enquanto os social-democratas do SPD tiveram o seu pior resultado histórico, com apenas 20,5%. Após uma longa ausência, os liberal-democratas do FDP retornaram ao Parlamento, com 11% dos votos, seguidos pelos 9% da Esquerda (Die Linke) e os 8,5% dos Verdes.

Mas o grande choque foi o desempenho dos extremistas de direita do AfD (sigla de Alternativa para a Alemanha), partido que atraiu uma mescla de eleitores enraivecidos, retrógrados e racistas abertos, recebendo nada menos que 13% da votação e tornando-se a terceira força no Bundestag, com 93 deputados (de um total de 630).

Considerando uma participação elevada no pleito (77%), os resultados evidenciam o descrédito do eleitorado nos partidos tradicionais. A mensagem direta foi: vocês da elite política perderam contato com a realidade e precisam voltar a ouvir as pessoas e suas preocupações. As principais são: a questão da imigração (nos últimos dois anos, a Alemanha recebeu mais de 2 milhões de imigrantes); as incertezas econômicas e sociais; baixas pensões; alto custo da moradia; decadência das condições educacionais; e lacunas crescentes entre os lados oriental e ocidental do país, entre ricos e pobres e entre jovens e velhos.

A raiva foi o sentimento que determinou os resultados eleitorais. Por isso, pelo menos 2 milhões de eleitores que tradicionalmente votariam no SPD, CDU ou CSU, desta vez, optaram pelo voto de protesto no AfD. A elite política é percebida pela maioria do eleitorado como totalmente divorciada dele, concentrada em administrar burocraticamente as suas atividades, como se fossem indivíduos embarcados em uma espaçonave. O fato é que a chanceler Angela Merkel, empenhada em formar uma nova coalizão para governar, não poderá manter o rumo atual, com a sua inclinação a “sentar-se sobre os problemas” ou neutralizar os que percebe como seus adversários no ambiente próximo. E essa fermentação política alemã terá, também, consequências em toda a Europa.

O flanco francês: Macron e suas visões sobre a Europa

O presidente francês Emmanuel Macron foi um dos primeiros líderes estrangeiros a congratular Merkel e augurar a continuação da parceria franco-alemã, enquanto o cumprimento do presidente Donald Trump levou quatro dias para chegar. Este fato apenas proporciona uma antevisão das futuras prioridades de política externa alemã, que precisará reorientar-se quanto à Europa e colocar em segundo plano as relações transatlânticas, além de redefinir as relações com a Rússia e a China.

Em dois discursos, na Sorbonne de Paris, em 25 de setembro, e na cúpula da União Europeia (UE) em Tallinn, Estônia, no último fim-de-semana, Macron deu indicações sobre o rumo para onde o vento poderá soprar. Em essência, ele fez um forte apelo para a refundação de uma “Europa soberana, unida e democrática”, no futuro imediato. Referindo-se aos conflitos e guerras dos séculos anteriores, que levaram a Europa ao abismo e dizimaram a sua população, ele ressaltou que “as ideias triunfam sobre as ruínas e que o desejo de relações fraternas entre os europeus era mais forte do que a vingança e o ódio”. À luz dos novos desafios enfrentados pela Europa, com a ameaça terrorista, a crise de migração, a crise estratégica no Oriente Médio e África, bem como um desengajamento progressivo dos EUA, o presidente francês delineou seis conceitos para fundamentar a reconstrução de uma União soberana e reforçada:

Primeiro: A Europa precisa garantir todos os aspectos da segurança, com uma força de defesa e uma doutrina comum de ação, incentivando a mais rápida possível implementação de um Fundo Europeu de Defesa e uma cooperação estruturada permanente, complementada por uma iniciativa de intervenção europeia, “que nos permita integrar melhor as nossas Forças Armadas em todas as etapas. Na luta contra o terrorismo, a Europa precisa assegurar ligações mais estreitas entre os nossos serviços de inteligência, criando uma Academia Europeia de Inteligência. A Europa precisa de uma força comum de proteção civil”.

Segundo: Uma Europa que aborde o desafio da migração. Macron pediu a criação de uma área comum para a gestão das fronteiras, asilo e migração, “para controlar efetivamente as nossas fronteiras e receber refugiados em condições decentes, integrando-os genuinamente e devolvendo aqueles que não tenham permissão para asilo. Precisamos criar um Gabinete Europeu de Asilo, que agilize e harmonize os nossos procedimentos”. Isto deve incluir o estabelecimento de bases de dados interligadas e documentos de identificação biométricos seguros; gradualmente, o estabelecimento de uma “força de polícia fronteiriça europeia”, que garanta um controle rigoroso das fronteiras e o retorno daqueles que não possam ficar; e financiar um programa europeu de grande escala para qualificar e integrar refugiados.

Terceiro: Uma Europa que olhe para a África e o Mediterrâneo; a Europa precisa de uma “política externa” baseada em algumas prioridades: primeiramente, o Mediterrâneo e a África, desenvolvendo uma “nova parceria” baseada na educação, na saúde e na transição energética.

Quarto: Uma Europa exemplar em desenvolvimento sustentável.

Quinto: Uma Europa de “inovação” e regulamentação adaptada ao mundo digital, sendo preciso estabelecer uma “agência de inovação inovadora, financiando conjuntamente novos campos de pesquisa, como a inteligência artificial, ou aqueles que ainda não foram explorados”.

Sexto: uma Europa que se posicione como um poder econômico e monetário; “Precisamos tornar a zona do euro o coração do poder econômico global da Europa”, afirmou Macron. Além das reformas nacionais, a Europa precisa dos instrumentos para transformar-se em uma “área de crescimento e estabilidade”, incluindo um orçamento que lhe permita financiar investimentos comuns e garantir a estabilização em caso de choques econômicos. Ele também pediu uma solidariedade concreta por meio da convergência social e fiscal (impostos corporativos e garantia de um salário mínimo para todos, adaptado às realidades de cada país).

Um argumento bastante expressivo desenvolvido por ele foi a visão de uma Europa que se torne consciente das suas raízes e do cimento que a mantém unida – “cultura e conhecimento”. Assim, Macron apresentou a ousada ideia de promover bem mais ativamente os intercâmbios de jovens e estudantes entre os países europeus. “Precisamos intensificar os intercâmbios, de modo que todos os jovens europeus passem pelo menos seis meses em outro país europeu (50% de cada faixa etária, em 2024) e que todos os alunos falem outras línguas europeias até 2024”. Ele pediu a criação de redes de universidades europeias (pelo menos 20 até 2024), que permitam aos alunos estudarem no exterior e participar de aulas em pelo menos duas línguas. Nas escolas secundárias, há a necessidade de se estabelecer um processo de harmonização ou reconhecimento mútuo de diplomas, como no ensino superior.

Para atingir esse objetivo, ele sugeriu que convenções democráticas sejam realizadas nos próximos seis meses, além de debates locais em todos os países da EU, para formular questões comuns. Isto também inclui uma reforma da Comissão Europeia e a apresentação de listas transnacionais com os principais candidatos, nas eleições europeias, até 2019.

Macron sugeriu que a Europa deveria estar aberta a diferentes velocidades de crescimento e prestar atenção à importância do motor franco-alemão: “Diante desses desafios, o motor franco-alemão será decisivo. Por que, por exemplo, não se estabelecer o objetivo de integrar totalmente os nossos mercados até 2024, aplicando as mesmas regras aos nossos negócios, do direito das empresas à lei de falências?”

Para Macron, todos os estados que compartilhem essa ambição poderiam participar do lançamento de um “grupo para a revisão da Europa nas próximas semanas”. Este grupo incluirá representantes de cada Estado membro participante e envolverá as instituições europeias. Até o verão de 2018, ele irá esclarecer e propor medidas que implementem tal ambição, com base nos debates realizados nas convenções democráticas. Eles devem sugerir as ferramentas necessárias para a revisão (cooperação reforçada e eventuais mudanças no tratado serão examinadas). Com a proposta, Macron comparou-se a Robert Schumann, que propôs a construção da Europa unida, em 1950, afirmando: “Uma Europa unida não foi alcançada e tivemos a guerra.”

Uma visão russa

Apesar das propostas visionárias (e Merkel, obviamente, reagiu positivamente a alguns aspectos do seu discurso em Taliinn, enquanto outros chefes de Estado se mostraram céticos), Macron deixou de lado as suas considerações sobre a futura política externa da UE sobre a Rússia, que tem sido dominada por sanções e a ausência de diálogo.

No dia seguinte às eleições alemãs, um interessante debate ocorreu no Clube de Discussões de Valdai, em Moscou, com o diretor de Programas Dimitry Suslov entrevistando dois especialistas em assuntos alemães: Mirko Hempel, diretor da Fundação Friedrich Ebert em Moscou, e Nikolay Pavlov, do Departamento de Estudos Europeus e Americanos da Universidade MGIMO de Moscou. Ambos qualificaram os resultados das eleições como “a pior derrota histórica” ​​para Merkel, além de provocar uma mudança tectônica no sistema partidário alemão, pois, pela primeira vez desde 1949, há sete partidos no Parlamento, sendo a terceira força um forte partido de direita. Para eles, a vitória de Merkel foi um tanto “capenga”, com uma sensível perda de votos para a dupla CDU/CSU. E o fato de o AfD ter vencido a CDU no estado federal da Saxônia é um sinal de que os políticos devem levar a sério os receios da população, concentrados na imigração e no declínio social, além de rejeitar a posição anti-russa.

Do ponto de vista russo, como destacou Pavlov, a questão-chave é saber quem será o próximo ministro das Relações Exteriores de Merkel. O FDP tende a preferir o Ministério das Finanças. Se for um “verde”, nada mudará e Merkel determinará a política externa. Mas, por outro lado, deve-se esperar que a CSU e o FDP exerçam mais pressão sobre Merkel, para mudar de atitude em relação à Rússia. Em lugar das relações transatlânticas, os dois especialistas previram que a prioridade da política externa alemã “se deslocará para a UE”, sendo preciso aguardar para ver que papel a Rússia irá desempenhar nesta configuração. Como observou Pavlov, muito dependerá de como Merkel e Macron se entenderem. Segundo ele, Trump “não é bem-vindo pelo Establishment alemão, já que eles não gostam de ‘imprevisibilidade’ e a política externa alemã não é feita em Washington, mas em Berlim, e também em função dos vários desentendimentos com os EUA, em questões como a da Coreia do Norte, as políticas ambientais, os gastos da OTAN [Organização do Tratado do Atlântico Norte] e o tratamento da crise da Ucrânia”.

Para Hempel, “precisamos reorientar a nossa política externa, isto é, ter mais diálogo. É claro que somos uma democracia baseada em valores, mas também temos interesses e seremos mais pragmáticos”. Como Pavlov, ambos concordaram com a necessidade de uma forte aliança entre a Alemanha e a França, que terá que se juntar com a Itália e a Espanha, e que a China e o seu conceito da “Rota da Seda” terão que ser levados em conta.

Como Pavlov enfatizou, Merkel deve ser realista e pragmática quanto à Rússia, pois a Alemanha responde por nada menos que 40% das importações russas e as relações entre os dois países têm funcionado mais ou menos bem há séculos. Ele lembrou a aliança estratégica russo-alemã com o Tratado de Rapallo de 1922 e o fato de que os dois países se complementam. E recordou o discurso “verdadeiramente de estadista” proferido pelo presidente Vladimir Putin no Bundestag, em 2001, quando afirmou que a Rússia quer fazer parte da Europa e falou de uma Europa de “Vladivostok a Lisboa”. “Aquilo foi uma revolução. Todo mundo ficou espantado com que Putin aceitava uma Alemanha livre, mas a UE e a Alemanha não estavam preparadas para isso, na época”, disse ele.

Hempel lembrou que, durante o século XIX, as relações russo-alemãs experimentaram altos e baixos e que, em última análise, precisamos “reparar urgentemente ambos os lados”. Ele recomendou enfaticamente que, em qualquer caso, “Merkel precisa repensar as relações bilaterais entre a Alemanha e a Rússia e as relações UE-Rússia. Não podemos continuar assim. Tudo está mudando rapidamente. Devemos encontrar uma maneira de ter uma boa cooperação. É nisto que o próximo governo deve se concentrar”. Ele também enfatizou a necessidade de uma solução construtiva para a crise no Leste da Ucrânia (onde a Alemanha e a França estão discutindo com a Rússia, enquanto os EUA estão discutindo com a Ucrânia) e que as sanções não podem durar para sempre. Ao mesmo tempo, deixou claro que as sanções dos EUA são muito mais severas e prejudicarão a economia da UE.

Os dois especialistas também destacaram que um fator-chave para assegurar uma mudança nos termos das relações Rússia-UE será um bom entendimento da dupla franco-alemã.

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