Aeromóvel + vontade política, revolução na mobilidade urbana

As duas fotos de trens abaixo não mostram modernos projetos ferroviários chineses. Elas foram feitas em Porto Alegre (RS) e na capital da Indonésia, Jacarta, onde funcionam as únicas linhas comerciais do aeromóvel, revolucionária tecnologia desenvolvida pelo engenheiro gaúcho Oskar Coester. Ambas são curtas. A linha gaúcha funciona desde 2013, ligando o metrô ao aeroporto Salgado Filho, em um trajeto de pouco menos de um quilômetro. A linha indonésia, inaugurada em 1989, foi construída em um parque cultural da capital, tem 3,2 km e seis estações.

 

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Linhas do aeromóvel, em Porto Alegre (em cima) e Jacarta (em baixo)

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Linhas do aeromóvel, em Porto Alegre (em cima) e Jacarta (em baixo)

A partir de 2018, o município de Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre, passará a operar três linhas de aeromóvel, em uma extensão total de 15 km e 22 estações, que prometem efetuar uma autêntica revolução na mobilidade urbana para os seus 350 mil habitantes. O contrato com a empresa Aeromóvel Brasil S.A. já foi assinado e a Prefeitura de Canoas já fez o primeiro pagamento, de R$ 1,5 milhão, para a primeira parte do projeto executivo.

“Seremos a primeira cidade do Brasil a usar o aeromóvel como transporte de massa. É uma solução à altura das exigências de mobilidade e ambientalmente adequada aos novos tempos, com motor elétrico de alta eficiência”, disse à revista Carta Capital (15/07/2015) o orgulhoso prefeito da cidade, Jairo Jorge da Silva (PT).

As três linhas abrangerão os bairros Guajuvira e Mathias Velho, onde vivem 70% da população de baixa renda do município. A capacidade diária do novo modal será de 120 mil passageiros, igualando-se à do sistema de ônibus existente na cidade. Estes, por sua vez, deverão passar a servir como linhas alimentadoras do aeromóvel, cuja primeira linha deverá começar a operar até o final de 2016.

A construção do sistema está orçada em R$ 800 milhões. A Prefeitura já assegurou recursos federais do PAC Mobilidade Médias Cidades, no montante de R$ 272 milhões, para a primeira etapa de seis quilômetros, que ligará os bairros Guajuviras e Mathias Velho, cuja população é estimada em 150 mil pessoas. Para que se tenha uma ideia do ganho de tempo esperado, o trajeto nesta linha deverá ser feito em 12 minutos; nos horários de pico, o trajeto de ônibus entre os dois bairros chega a levar entre uma hora e uma hora e meia (Zero Hora, 19/12/2014).

As primeiras etapas das obras envolvem a construção das estações e da via elevada, além do remanejamento das redes de TV a cabo, telefonia e eletricidade. Na sequência, serão desenvolvidos os veículos e sistemas de controle voltados para as necessidades específicas do município.

Segundo o secretário da Fazenda de Canoas, Marcos Bosio, “a ideia é contratar um operador por meio de Parceria Público-Privada, com qualidade e baixo custo… Não temos como subsidiar e o aeromóvel terá de cobrir 100% dos custos”.

Além disso, outra iniciativa da Prefeitura no sentido de viabilizar economicamente o aeromóvel será a mudança do Plano Diretor do município, com o aumento da área construída sendo condicionado à compra de um índice construtivo, com terrenos situados dentro de faixa de até 500 metros de largura ao longo da via. Assim, se pretende evitar uma onda de especulação imobiliária e a expulsão da população mais pobre a partir da valorização do entorno da linha.
“Quem pretende fazer um empreendimento imobiliário de até 8 mil metros quadrados em um terreno de 10 mil não pagará nada. Para construir 35 mil, comprará do município o índice construtivo necessário para obter os 27 mil da diferença”, explicou Bosio, que frisou ainda que dinheiro arrecadado irá para um fundo de mobilidade.

Antes de começar a funcionar, o aeromóvel já começa a atrair novos investimentos para a cidade, como a construção de um novo shopping pelo Grupo Multiplan, próximo ao futuro trajeto dos trilhos. A Prefeitura negocia com a empresa a realização de outras obras públicas.

Por outro lado, Bosio disse à revista que, durante uma visita aos Estados Unidos a convite do governo estadunidense, ele foi “alertado sobre riscos” envolvendo o desenvolvimento de projetos na área, o que interpretou como um indicador da preocupação da concorrência internacional com o sucesso da tecnologia brasileira. Além disso, em setembro do ano passado, o secretário esteve no Japão, a convite de duas universidades interessadas no modal e da Sociedade de Engenharia Mecânica, tendo se reunido com possíveis fornecedores de componentes e sistemas, interessados em disputar com empresas brasileiras (Carta Capital, 15/07/2015).

A iniciativa do prefeito de Canoas é das mais oportunas e demonstra que, na presença da necessária vontade política, projetos e iniciativas de grande impacto socioeconômico como o aeromóvel podem sair do papel. Seria de grande conveniência que outros administradores públicos, nas três esferas do Poder Executivo, prestassem atenção no exemplo de Jairo Jorge da Silva, em um momento em que o pessimismo com a política e os rumos da economia tomam conta do País.

Tecnologia 100% nacional

A tecnologia do aeromóvel foi desenvolvida pelo engenheiro e empresário gaúcho Oskar Coester, desde a década de 1960. Por fora, ele parece um trem leve comum, pois se movimento em uma via elevada dotada de trilhos tradicionais. Mas a semelhança acaba aí, pois o aeromóvel é propulsionado pela pressão do ar que circula em um duto situado abaixo dos trilhos sobre uma placa afixada na parte inferior dos vagões. A pressão é fornecida por turboventiladores elétricos situados ao longo do duto, com o que o peso dos vagões é bem mais reduzido do que em trens convencionais em que os motores são internos (diagrama abaixo).

Diagrama esquemático do sistema de propulsão pneumático do aeromóvel.

Diagrama esquemático do sistema de propulsão pneumático do aeromóvel.

O diretor da Aeromóvel Brasil, Marcus Coester, explica que as “composições funcionam como barcos a vela invertidos”. Segundo ele, a pressão necessária para movimentar os vagões é surpreendente baixa, de apenas 0,07 atmosfera (menos que a metade da pressão arterial humana). A operação dos trens é inteiramente automática e as composições podem atingir até 65 km/h.

Tais características tornam o aeromóvel extremamente competitivo em relação a outros veículos ferroviários. A sua eficiência energética é a metade da de um VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) convencional, um terço de um trem de metrô e um quarto de um ônibus. Outra vantagem é que a construção das linhas praticamente dispensa grandes desapropriações.

O custo médio estimado da linha, incluindo obras civis, veículos, estações com portas de plataforma e ar condicionado, propulsão e controle automático, é de R$ 35 milhões por quilômetro de via simples ou R$ 65 milhões para via dupla, contra R$ 80-100 milhões por quilômetro para o VLT. Porém, o modal não pode ser comparável ao metrô, devido à maior capacidade de transporte deste último, mais adequado a linhas de grande densidade de passageiros (o aeromóvel é considerado como de capacidade média).

Oskar Coester vem tentando interessar as autoridades públicas no seu projeto desde o final da década de 1970, quando conseguiu registrar a patente do seu invento no Reino Unido, antes mesmo que no Brasil. Em 1982, foi autorizada a liberação de recursos do Ministério dos Transportes e do governo do Rio Grande do Sul para a construção de uma linha piloto de 1.025 metros em linha elevada, em Porto Alegre. Logo após o início das obras, a liberação dos recursos foi suspensa e Coester teve que reduzir a linha para 650 metros, que concluiu com recursos da sua própria empresa. Apenas em 1986, a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) aportou os recursos necessários para completar uma linha de um quilômetro (totalmente reembolsados por Coester).

Oskar Coester em um protótipo do aeromóvel (foto Danilo Borges)

Oskar Coester em um protótipo do aeromóvel (foto Danilo Borges)

No mesmo ano, representantes do governo da Indonésia visitaram a linha piloto e, em 1988, Coester assinou um contrato com um grupo indonésio para a construção de uma linha de 3,2 km, na capital Jacarta. A linha, concluída em apenas oito meses, foi inaugurada pelo então presidente do país, general Suharto.

O Brasil teria que esperar até 2010 para a primeira operação comercial do aeromóvel, quando foi lançado o projeto da linha entre o aeroporto Salgado Filho e a Estação Aeroporto da empresa de trens Trensurb, que começou a operar em 2013.

Esperemos que a nova linha de Canoas proporcione à tecnologia desenvolvida por Oskar Coester a merecida visibilidade e que, futuramente, ela possa vir a melhorar a mobilidade urbana para os sofridos habitantes de outras cidades brasileiras.

Um vídeo ilustrativo sobre o aeromóvel pode ser visto No Youtube.

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