A encíclica ambiental de Francisco

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Em julho do ano passado, em uma entrevista publicada na revista Viva, edição dominical do jornal argentino Clarín(27/07/2014), o papa Francisco anunciou a intenção de divulgar uma encíclica sobre a Criação e o respeito ao meio ambiente, no início de 2015. Em 27 de dezembro, o jornal inglês The Observer informou que o documento deverá ser divulgado em março próximo e dará uma ênfase especial ao tema das mudanças climáticas e suas repercussões para a humanidade.

Em seu pontificado, que ainda não completou dois anos, Jorge Bergoglio tem demonstrado uma firme determinação de intensificar a contribuição da Igreja de Roma para o enfrentamento dos grandes problemas da atualidade. Um deles, sem dúvida, é a necessidade da retomada de uma percepção correta da atitude humana em relação ao meio ambiente, distorcida por décadas de excessos decorrentes de uma interpretação sectária e politizada dos problemas ambientais, que os apresenta como rígidos condicionantes e limites das perspectivas de desenvolvimento da humanidade.

Em sua essência, essa visão radicalizada é uma recauchutagem dos surrados conceitos do economista britânico do século XVIII, Thomas Malthus, sobre limites do crescimento populacional e do desenvolvimento humano, atribuídos à escassez de recursos naturais. Dois séculos depois, suas ideias – tão combatidas pela Igreja Católica – encontraram novas formulações, em conceitos propostos pelos adeptos do radicalismo ambiental, como “capacidade de suporte”, “biocapacidade” e outros, cujo objetivo último é conferir credibilidade à falaciosa, cientificamente injustificável e moralmente inaceitável sugestão de que os “limites naturais” não permitiriam que os níveis de bem-estar e desenvolvimento atingidos pelas sociedades das nações industrializadas pudessem ser estendidos a todos os povos do planeta.

Dado o rigor com que Francisco tem exposto as mazelas socioeconômicas que afligem o planeta, em especial, na exortação apostólica Evangelii Gaudium – A alegria do Evangelho, é lícito esperar que a nova encíclica venha a representar uma contribuição de peso para tal necessária reorientação, sobretudo, no tocante à refutação da virtual “sacralização” da natureza, tão cara aos radicais, que a converte em uma entidade dotada de direito próprio, frente aos requisitos de progresso e desenvolvimento da humanidade.

Neste particular, o Pontífice dispõe de uma sólida base, no próprio entendimento da Igreja sobre o tema.
Na encíclica Populorum progressio, publicada em 1968, ao afirmar que “o desenvolvimento é o novo nome da paz”, o papa Paulo VI (1963-1978) deixou claro o entendimento de que o homem não é inimigo da natureza; ao contrário, está convocado a participar do seu aperfeiçoamento, por meio da técnica gerada pela sua capacidade intelectual.

Por sua vez, João Paulo II (1978-2005) se dedicou ao tema em várias oportunidades. Em um discurso proferido na Pontifícia Academia de Ciências do Vaticano, em outubro de 1996, ele fez uma clara diferenciação entre o ser humano e o restante da Criação, algo que contraria o esdrúxulo enfoque “biocentrista” favorecido pelos ambientalistas radicais, que consideram o homem apenas como mais uma das milhões de espécies que povoam a biosfera terrestre. Na ocasião, Karol Wojtyla afirmou:

O indivíduo humano não deve ser subordinado como um puro meio ou instrumento, nem às espécies, nem à sociedade… A afirmação de São Tomás [de Aquino], de que a semelhança do homem com Deus tem a ver, sobretudo, com a sua inteligência especulativa, assim como as suas relações com o objeto do seu conhecimento, é similar à relação de Deus com Sua obra. (…) Com o homem, portanto, enfrentamos uma diferença de ordem ontológica, um salto ontológico, diríamos.

Em abril de 2007, já no pontificado de Bento XVI (2005-2013), o Conselho Pontifício Justiça e Paz promoveu, no Vaticano, um seminário internacional sobre mudanças climáticas e desenvolvimento, o qual contou com a participação de 80 especialistas de diversas áreas científicas e técnicas, de 20 países. Na oportunidade, o então presidente do Conselho, cardeal Renato Martino, fez uma enfática rejeição do “biocentrismo” (por ele chamado “biologismo”):

(…) A natureza não é um absoluto, mas uma riqueza depositada nas mãos responsáveis e prudentes do homem. (…) O homem tem uma indiscutível superioridade sobre a criação e, em virtude de ser pessoa dotada de uma alma, não pode ser equiparada aos demais seres vivos, nem muito menos considerado elemento de perturbação do equilíbrio ecológico naturalista. O homem não tem um direito absoluto sobre ela, ainda que sim um mandato de conservação e desenvolvimento dentro de uma lógica do destino universal dos bens da Terra, que é um dos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja, princípio que tem de ser compatibilizado sobre tudo com a opção preferencial pelos pobres e pelo desenvolvimento dos países pobres. (…)

Sobre o tema específico do simpósio, Martino rechaçou de forma categórica o alarmismo que cerca os prognósticos equivocados de que as atividades humanas estariam desestabilizando o sistema climático terrestre:

Nem todo o mundo científico está proclamando o desastre. Há um bom número de cientistas que, consistentemente, não vê essas mudanças climáticas sob um ângulo negativo e, de fato, dizem que esses fenômenos são recorrentes ao longo dos anos e das eras e, às vezes, podem apresentar resultados favoráveis para a agricultura e o desenvolvimento.

Outro prelado vaticano que tem se oposto ao discurso antitecnológico e antiindustrial dos radicais “verdes” é o monsenhor Giampaolo Crepaldi, arcebispo de Trieste e presidente do Centro Internacional Cardeal Van Thuân sobre a Doutrina Social da Igreja. Em fevereiro de 2011, a agência Zenit divulgou um artigo de sua autoria, no qual fazia uma forte crítica ao chamado “Princípio da Precaução”, outro conceito utilizado pelos ambientalistas radicais para negar intervenções humanas potencialmente capazes de gerar impactos no meio ambiente. Os parágrafos seguintes sintetizam os argumentos essenciais da questão:

Não devemos pensar que deixamos aos nossos filhos a natureza tal como nós a encontramos, nem devemos pensar em deixá-la completamente devastada e contaminada de um modo irreversível – tratam-se de dois extremos incorretos. Nós devemos manejar a natureza adequadamente, para torná-la apta à satisfação das necessidades de um desenvolvimento autenticamente humano e deixá-la em tal modo que nossos sucessores também o possam fazer. Uma natureza intacta não serve a ninguém. Não é esta a sua vocação. Muitas teorias atuais são contrárias ao desenvolvimento em si mesmo, falam de crescimento negativo e querem interromper um certo tipo de desenvolvimento para substituí-lo por outro.

Prefeririam que a humanidade voltasse atrás, a uma sociedade natural, fundada na austeridade, no autoconsumo, no intercâmbio com a natureza. Essas ideologias querem deixar a natureza tal como está e mostram, portanto, uma grande falta de confiança no homem, na sua criatividade e na sua inteligência. Muitos outros denunciam a superpopulação como a principal fonte de danos ambientais; tentam limitar os nascimentos, sobretudo em países pobres, porque pensam que a natureza, para suportar tal massa de habitantes, sofreria uma degradação irreversível. Houve, e ainda há, muitas previsões catastróficas sobre o destino do planeta como consequência da “superpopulação”, que embasaram políticas neomalthusianas de contenção de nascimentos por meio do uso de anticoncepcionais distribuídos em massa ou, mesmo, com a defesa do aborto. Há aqui alguns exemplos muito negativos de ideologias ambientalistas, que terminam agredindo a humanidade, em vez de promover o desenvolvimento.

A nossa responsabilidade para com as futuras gerações não implica na promoção de políticas desse tipo. Existem na Terra recursos para alimentar aos muitos bilhões de pessoas, caso haja vontade de cultivar a Criação com sabedoria. Essas ideologias absolutizam a natureza, esquecendo-se que esta é para o homem, e não acreditando que o homem a deva gerir e administrá-la sabiamente – e não apenas conservar, como em um museu. Neste sentido, não são verdadeiramente responsáveis em relação às gerações futuras – as que, antes de mais nada, têm interesse em existir, sem ser previamente anuladas para a salvaguarda de supostos equilíbrios naturais. As políticas ambientais necessitam estar bem informadas para ser eficazes e a fonte de informações nesta área, por excelência, é a ciência. Entretanto, a ciência nem sempre fornece informações completas e exaustivas: às vezes, os cientistas estão influenciados pelas ideologias e pelos interesses políticos, e eis o porque de todo político, principalmente os políticos católicos – porque sua fé os defende mais contra tais ideologias -, dever saber gerir com prudência e sabedoria as informações que vêm das ciências. (…) Certas políticas ambientais equivocadas criam novos riscos ambientais, e um exemplo disto é o chamado “Princípio da Precaução”, criado em referência a possíveis riscos ambientais (Zenit, 18/02/2011).

Embora Crepaldi não tenha denominado os interesses políticos que promovem o radicalismo ambientalista, é de domínio público que são os mesmos grupos oligárquicos transnacionais que se encontram por trás das mazelas da “globalização da indiferença”, denunciada de forma tão contundente por Francisco.

Em suas considerações, tanto Martino como Crepaldi combinam os mais elevados princípios humanistas com o rigor do conhecimento científico, ao contrário do que costumam fazer os defensores radicais do meio ambiente, que preferem recorrer a palavras de ordem e conceitos que, embora incorretos, acabam obtendo uma imerecida credibilidade devido à repetição maciça, principalmente, na mídia. Otimisticamente, pode-se esperar que ambos estejam entre as fontes consultadas por Francisco para a redação da nova encíclica.

O ambientalismo ronda a Igreja

Desafortunadamente, esse correto entendimento sobre as questões ambientais não é compartilhado por todos os setores da Igreja. Em particular, aqueles influenciados pela chamada Teologia da Libertação e pelos eflúvios do marxismo têm se mostrado permeáveis à penetração da ideologia ambientalista e o seu discurso radical contra as tecnologias modernas e os projetos de desenvolvimento, como os de infraestrutura de energia e transportes.

Esta influência tem produzido resultados bastante equivocados, como se viu na edição de 2011 da Campanha da Fraternidade da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), cujo tema foi “Fraternidade e a vida no planeta”. O texto-base da campanha, com 135 páginas, não passava de uma colagem de argumentos e conceitos anticientíficos e desorientados usados pelos ambientalistas, tendo como foco principal as mudanças climáticas, para as quais a agenda proposta por tais grupos radicais contempla uma drástica “descarbonização” da base energética mundial. Como esta se baseia, em mais de 80%, no consumo de carvão mineral, petróleo e gás natural, os chamados combustíveis fósseis, e não há alternativas tecnológicas economicamente viáveis para substituí-los a curto e médio prazos, a consequência previsível da adoção de tal agenda seria um virtual “congelamento” do desenvolvimento mundial, quiçá um retrocesso civilizatório, acompanhado de uma significativa da população do planeta.

De forma sintomática, o texto-base passava por cima de todos os ensinamentos da Doutrina Social da Igreja, referentes à posição do homem na natureza, como ressaltados pelos luminares eclesiásticos anteriormente citados.

E o próprio Vaticano tem se mostrado permeável à penetração do ambientalismo, em especial, no tocante ao enfoque prevalecente sobre a inexistente ação humana sobre o clima global. Em maio de 2014, durante a 67ª Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), o texto oficial da Santa Sé, lido pelo arcebispo Zygmunt Zimowski, incluía a seguinte passagem:

(…) Há evidências esmagadoras de que as atividades humanas têm contribuído grandemente para o recente aquecimento da superfície da Terra, e de que as mudanças climáticas, bem como as suas consequências, continuarão no futuro. Tem sido observado que as mudanças climáticas atuarão, principalmente, agravando os problemas de saúde já existentes, e que a maioria dos riscos cairão sobre as populações que são, atualmente, mais afetadas pelas doenças relacionadas ao clima (Zenit, 21/05/2014).

No mesmo mês, a Pontifícia Academia de Ciências e a Pontifícia Academia de Ciências Sociais promoveram um simpósio internacional sobre o tema “Humanidade Sustentável, Natureza Sustentável: Nossa Responsabilidade”. Entre as dezenas de especialistas internacionais participantes do evento, encontravam-se alguns notórios malthusianos e promotores do enfoque radical do ambientalismo, como o economista Jeffrey Sachs, diretor do Instituto da Terra da Universidade de Colúmbia (EUA) e notório malthusiano, que, em um artigo publicado no sítio da rede CNN, fez as seguintes considerações sobre a população mundial:

A chegada da sétima bilionésima pessoa é causa de uma profunda preocupação. Ela traz um desafio: o que custará manter um planeta em que cada pessoa tenha uma chance de ter uma vida plena, produtiva e próspera, em que os recursos do planeta sejam mantidos para as futuras gerações? Como, em síntese, podemos desfrutar do ‘desenvolvimento sustentável’ em um planeta tão lotado (CNN, 21/10/2011)?

Considerando que nenhum cientista atmosférico não comprometido com a agenda alarmista estivesse presente, não surpreende este parágrafo da declaração final do evento:

O uso maciço de combustíveis fósseis, que está no coração do sistema energético global, desestabiliza profundamente o clima da Terra e provoca a acidificação dos oceanos. O aquecimento e os fenômenos meteorológicos extremos associados a ele atingirão níveis sem precedentes, durante as vidas dos nossos filhos, e 40% dos pobres do mundo, que têm um papel mínimo na geração da poluição global, provavelmente, serão os que mais sofrerão. (…) (Zenit, 15/05/2014.)

Como, certamente, o simpósio foi organizado com o propósito de proporcionar subsídios à nova encíclica, esperemos que o enfoque ambientalista não tenha um peso correspondente na sua redação. Enquanto isso, vale orar para que o Espírito Santo ilumine o Santo Padre no seu importante trabalho, colocando no seu caminho os especialistas devidamente credenciados para esclarecer, entre outros aspectos cruciais, que:

1) Não existe uma crise ambiental no planeta, mas um conjunto de problemas ambientais, em sua maioria pontuais e de âmbito local ou regional, que podem e devem ser enfrentados e solucionados, com uma combinação de conhecimento científico, tecnologias modernas, vontade política e, sobretudo, doses planetárias de bom senso.

2) O ambientalismo é um movimento ideológico e político, criado e mobilizado por grupos oligárquicos do Hemisfério Norte, com a finalidade precípua de reduzir a população mundial e consolidar o princípio malthusiano de que os níveis de bem-estar social e desenvolvimento das nações industrializadas não poderia ser estendido a todos os povos do planeta – ao contrário, se houvesse a necessária determinação para tanto, isto seria possível em pouco mais de uma geração.

3) As atividades humanas não estão influenciando o sistema climático em escala global, pelo simples fato de que oscilações das temperaturas atmosféricas e oceânicas e dos níveis do mar, ainda maiores e mais rápidas que as observadas nos últimos séculos, já ocorriam no passado histórico e geológico, bem antes da Revolução Industrial do século XVIII – ou seja, não há se afirmar cientificamente que as oscilações mais recentes sejam anômalas e, por conseguinte, possam ser atribuídas à ação humana. A influência humana no clima se limita às cidades e seu entorno imediato. Portanto, a proposta “descarbonização” da economia mundial não passa de uma agenda de “congelamento” da industrialização e do desenvolvimento socioeconômico.

4) As fontes energéticas que poderão assegurar o pleno desenvolvimento de toda a humanidade, ainda neste século, e, eventualmente, poderão substituir grande parte dos combustíveis fósseis, não são as alternativas rudimentares oferecidas pelos ambientalistas (eólica, solar etc.), mas fontes baseadas em novos princípios físicos, como a fusão nuclear, reações nucleares de baixa energia (“fusão a frio”), energia do vácuo quântico e outras, que necessitam de pesquisas e incentivos e para cuja promoção os órgãos científicos do Vaticano poderão dar uma grande contribuição.

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